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Viticultura ·

Do Cordão Duplo ao Guyot: A Evolução da Poda do Alvarinho

A paisagem da vinha em Melgaço guarda um saber técnico que vai muito além da tradição. A forma como se poda está a mudar, e com ela o futuro da produção, da sustentabilidade e da identidade do território.

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A paisagem da vinha em Melgaço, moldada pelo trabalho persistente de gerações, guarda um saber técnico que vai muito além da tradição. Hoje, porém, entre vinhas alinhadas e tesouras em mãos, decorre uma transformação discreta mas decisiva: a forma como se poda está a mudar, e com ela o futuro da produção, da sustentabilidade e da identidade deste território.

As origens: revolução nos anos 70

A viticultura moderna nesta região começou nos anos 70 e 80, quando técnicos da Direção Regional de Agricultura de Entre Douro e Minho procuraram novas alternativas para substituir as ramadas tradicionais e as cruzetas.

“Inicialmente em Melgaço usou-se o cordão duplo, um cordão inferior e outro superior, mas o ensombramento excessivo criado pela vegetação do cordão superior fazia desaparecer os pontos de poda do cordão de baixo, devido à falta de iluminação e baixa temperatura”, explica José Afonso, Técnico Superior da CCDR-Norte.

Quando a iluminação é baixa, os níveis de dióxido de carbono absorvido e emitido pelas folhas igualam-se, atingindo o chamado ponto de compensação luminosa. Nesse momento, as folhas deixam de contribuir com compostos produzidos pela fotossíntese e podem até comportar-se como consumidoras da energia gerada pelas folhas ativas, diminuindo sensivelmente o potencial de maturação da videira.

O cordão retombante

A solução para compensar as limitações do cordão duplo chegou com o cordão simples retombante, inspirado em técnicas italianas e no sistema GDC (Geneva Double Curtain), de origem americana. Este modelo revolucionou a viticultura do Alvarinho por uma razão fundamental: “Embora a casta seja mais produtiva na parte média e superior da vara de poda, no sistema retombante os gomos basais recebem mais luz, o que favorece a floração e, consequentemente, a produção.”

O retombante permitiu atingir densidades de 20.000 a 22.000 gomos por hectare e contribuiu para a afirmação dos vinhos da sub-região de Monção e Melgaço. Quintas pioneiras já adotavam este sistema numa altura em que grande parte do território ainda mantinha vinhas de subsistência.

O cordão ascendente e a mecanização

As limitações do modelo retombante tornaram-se evidentes com a crescente necessidade de mecanização da vinha. Foi nesse contexto que começou a ser implantado o cordão ascendente.

Entre as suas principais vantagens destacam-se a possibilidade de utilização de maquinaria, a maior facilidade e eficácia na aplicação de tratamentos, uma melhor ventilação dos cachos — que favorece a sanidade — e maior eficiência durante a vindima.

No entanto, este sistema exige um trabalho em verde mais intenso, uma vez que o excesso de vegetação pode provocar sombreamento nos gomos da base e dificultar a sua brotação. A eficácia do cordão ascendente depende, por isso, de uma adequada gestão em verde.

A inovação é conhecimento

Hoje, os sistemas ascendentes, especialmente o Guyot bilateral, ganham terreno na sub-região. “Permitem melhor mecanização, mas exigem maior conhecimento técnico”, refere José Afonso.

A dificuldade, acrescenta, é que “os sistemas mudam sem que exista um verdadeiro processo de capacitação profissional dos viticultores. A experimentação pública em viticultura praticamente desapareceu, deixando o conhecimento e a formação cada vez mais concentrados no setor privado.”

Preservar o saber agrícola acumulado ao longo de gerações é, por isso, fundamental — não apenas como parte do património imaterial do território, mas também como alicerce para o futuro da viticultura, que dependerá do compromisso em valorizar a formação como uma verdadeira ferramenta de desenvolvimento.

VINEVINU

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